10 de setembro de 2008

Quando for feliz é porque serei como tu

A propósito do post anterior e do quanto eu gostaria que a vida fosse mais simples, hoje quando cheguei a casa, já depois da meia-noite, e após um duche quentinho, dei por mim a pensar no quanto admiro a minha mãe. Na verdade ela é brilhante e comprovo o brilhantismo dela nas coisas aparentemente corriqueiras. Os génios não se vêem apenas nas grandes obras.

Eu não sou suspeita nos elogios que lhe faço pois, embora seja minha mãe, sempre tive com ela uma relação complexa, antagónica. Mas a verdade é que eu gostava mesmo de ser como ela. De viver como ela. Ter a sabedoria dela. A sua simplicidade. A minha mãe é que sabe como ser feliz.

Ela não teve uma vida fácil. Estudou até à terceira classe e desde pequena, apesar de ser a mais nova de seis irmãos, aprendeu a lida da casa e tomava conta de todos. Foi namoradeira, mas casou cedo com o meu pai. São felizes, até hoje, ao fim de quase 28 anos de casados, porque ambos conservam uma jovialidade de espírito quase infantil (perto deles sou uma velha, levo tudo demasiado a sério). A minha mãe sempre trabalhou muito, tanto em casa, como em empregos que ía tendo ao longo da vida para ajudar a compor o orçamento doméstico. Anulou-se permanentemente em nome da felicidade familiar.

Nos últimos anos trabalhou numa loja sem acondicionamento, das 7h da manhã às 7h da noite. No inverno atingia graus negativos. Entretanto a saúde dela foi-se degradando ao nível dos ossos. Em épocas mais criticas ficava entravada uma a duas semanas na cama sem se conseguir levantar. Gemia toda a noite com as dores. Os médicos não lhe conseguiam diagnosticar a doença. Era nova demais para qualquer uma. Há uns meses um doutor espanhol disse-lhe que sofria de fibromialgia, mas o diagnóstico ainda não é oficial (precisa da confirmação de outros especialistas, senão pode apenas ser mais um palpite).

Entretanto, há um ano reformou-se (embora seja muito nova para tal). Decidimos em casa que estava na hora de ela deixar a vida louca que levava e que lhe degradava gradualmente a saúde.

Ainda pensei se ela se habituaria a ser "doméstica" novamente, vida à qual já se tinha desabituado. Mas a minha mãe, mais uma vez, deu-me uma lição. Um ano depois noto-lhe uma melhoria substancial no estado de saúde e no estado anímico. É nestas pequenas coisas que a acho genial:
revitalizou o jardim de casa, que agora está luxoriante; comprou pintos e cria galinhas só para se gabar que em casa só se come frango caseiro; increveu-se na hidroginástica, a conselho médico, e acabou por realizar um dos seus sonhos: participar em aulas de natação e aprender a nadar; trouxe a minha avózinha de 90 anos, que teimava em viver sozinha e independente, para viver connosco, mesmo não sendo ela a sua filha favorita e não querendo nenhuma das outras "queridinhas" saber dela (enchendo-a de mimos e proporcionando-lhe uns últimos anos de vida bastante doces, como ela merece); aceitou, por pressão minha, adoptar um rafeiro abandonado de que me enamorei e que agora, claro, gosta mais dela do que de mim...

Ainda ontem a minha mãe lamentava-se que tinha deixado caramelizar uns marmelos para fazer marmelada, cozendo em demasiado. O jeito era deitar a michórdia fora. Mas ela, ladina como é, deitou água na mistura e deixou arrefecer. No dia seguinte retirou-lhe as cascas, misturou maçã e fez uma fabulosa compota... as cascas da marmelada não foram par ao lixo e ficam óptimas no pão.

Isto pode parecer ridiculo e demasiado pequeno para qualquer pessoa que tenha perdido o seu tempo a ler este post "doméstico", mas a verdade é que a vida da minha mãe tem um sentido. Ela também sabe que é útil e faz feliz quem está à sua volta (se não sabe, deveria sabê-lo), e eu sinto que ela também é feliz por isso, mesmo que substime as capacidades de um computador ou ignore os objectivos da internet. Na verdade, para que é que ela precisa de o saber? Ela é que sabe ser feliz e tem sorrido mais vezes do que eu...

4 comentários:

Jorge Rita disse...

Bonito.

Isandes disse...

É. Também revi a minha mami aí. Interrogo-me muito se, caso venha a ser mamãe, consiga ser assim. É óbvio k não.
1 kiss à tua mãe e a todas as outras do mundo, boas ou menos boas!

PontoGi disse...

Tb revi a aminha mae em cada palavra. Ao contrario de ti, sempre tive com ela uma relacao muito proxima, muito cumplice e sempre a admirei!
Nao ha um unico dia em que nao me caia uma lagrima quando penso nela, seja de tristeza ou alegria. So de pensar nela me faz feliz!

Jess disse...

As mamas sao as melhores do mundo!E e excatamente como dizes um exemplo de perseveranca e adaptacao... Tem sp a solucao e forma de encaixe...